Política: Jorge Messias: o evangélico indicado por Lula ao STF e o encontro entre fé, direito e vida pública
Atual chefe da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias reúne uma trajetória jurídica ligada ao serviço público e uma identidade evangélica que ganha destaque no debate sobre sua indicação ao Supremo Tribunal Federal.
A indicação de Jorge Messias, atual advogado-geral da União (AGU), pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para ocupar uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF) coloca em evidência um aspecto particular de sua trajetória: sua identidade religiosa evangélica.
Em um país marcado pela diversidade religiosa e pela presença crescente de evangélicos no debate público, a escolha também chama atenção para a relação entre fé, instituições democráticas e o Estado laico brasileiro.
Quem é Jorge Messias?
Natural de Recife (PE), Jorge Rodrigo Araújo Messias é procurador da Fazenda Nacional desde 2007 e integra a carreira da Advocacia-Geral da União. É formado em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com mestrado e doutorado pela Universidade de Brasília (UnB).
Assumiu a chefia da AGU em janeiro de 2023, no terceiro governo Lula. Antes disso, ocupou diferentes funções na administração pública federal, inclusive na assessoria jurídica da Presidência da República.
Na vida religiosa, Messias é membro da Igreja Batista Cristã de Brasília e atua como diácono. Sua identidade evangélica não é apenas uma informação biográfica: ele próprio já falou publicamente sobre a influência da fé em sua formação pessoal e em sua compreensão da sociedade.
"Sou um evangélico ministro, e não um ministro evangélico"
Uma das declarações mais conhecidas de Jorge Messias sobre sua religião foi dada em entrevista ao portal Metrópoles, em julho de 2025.
Na ocasião, ele fez uma distinção entre sua identidade cristã e o exercício de uma função pública. A frase sintetiza sua tentativa de apresentar a fé como parte de sua vida pessoal, sem transformar o cargo estatal em instrumento de representação de uma denominação religiosa.
Essa discussão ganha relevância quando se considera o princípio constitucional da laicidade do Estado brasileiro. A Constituição assegura a liberdade religiosa, mas também estabelece que o poder público não deve privilegiar uma religião em detrimento das demais.
A indicação de Lula e a presença evangélica no debate sobre o STF
Em 20 de novembro de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou a indicação de Jorge Messias para ocupar a vaga deixada pelo ministro Luís Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal.
A escolha colocou um evangélico ligado à tradição batista no centro de uma discussão institucional de grande relevância nacional.
A indicação também chamou atenção porque Messias era apontado como um dos interlocutores do governo federal com setores da comunidade evangélica. Sua presença na AGU e sua relação com lideranças religiosas fizeram com que seu nome fosse acompanhado tanto por integrantes do governo quanto por representantes de diferentes correntes do protestantismo brasileiro.
A sabatina: fé cristã e Estado laico
Em 29 de abril de 2026, durante sua sabatina na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, Messias voltou a abordar publicamente sua identidade religiosa.
Apresentou-se como servo de Deus e afirmou que caminha com Deus há quatro décadas. Também fez uma distinção importante sobre a relação entre religião e Direito:
"É possível interpretar a Constituição com fé, e não pela fé."
A declaração expressa uma questão relevante para os cristãos que ocupam funções públicas: a possibilidade de preservar suas convicções religiosas sem desconsiderar os limites constitucionais do Estado laico.
Messias também declarou que suas convicções religiosas não deveriam se sobrepor à Constituição e que a atuação de um magistrado exige respeito às instituições e à diversidade religiosa.
O Senado rejeitou a indicação de Lula
É importante registrar o desfecho da indicação: apesar de ter sido aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça por 16 votos a 11, Jorge Messias não conseguiu aprovação no plenário do Senado.
Em 29 de abril de 2026, o plenário rejeitou seu nome por 42 votos contrários e 34 favoráveis. Eram necessários pelo menos 41 votos favoráveis.
Segundo o próprio Senado, foi a primeira rejeição de uma indicação presidencial ao STF em 132 anos.
Após o resultado, Messias reconheceu a soberania do Senado e afirmou que a democracia também exige saber lidar com derrotas.
Fé, pluralidade e participação na vida pública
A trajetória de Jorge Messias permite uma reflexão que ultrapassa a disputa em torno de uma vaga no Supremo.
A presença de evangélicos em instituições públicas brasileiras é um fenômeno que merece ser compreendido para além das divisões partidárias. A comunidade evangélica não constitui um grupo político homogêneo: reúne diferentes tradições teológicas, posições sociais e orientações políticas.
O fato de Messias ser evangélico e ter sido escolhido por Lula também evidencia que a identidade religiosa não determina, necessariamente, uma única posição política.
Para os cristãos, o episódio suscita uma discussão importante: como participar da vida pública mantendo a fidelidade às próprias convicções e, ao mesmo tempo, respeitando a liberdade de consciência e os direitos de quem pensa diferente?
A fé não precisa ser escondida por quem ocupa um cargo público. Da mesma maneira, o Estado não deve ser transformado em instrumento de uma religião.
Essa distinção é fundamental para uma democracia plural, na qual cristãos, judeus, muçulmanos, adeptos de outras religiões e pessoas sem religião tenham assegurada a mesma liberdade.



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